quarta-feira, 9 de julho de 2014

Livros Autodidatismo em Idiomas

Não é tão comum encontrar livros de grandes poliglotas falando sobre as técnicas que utilizaram para aprender idiomas. Livros sobre autodidatismo em idiomas então, mais raro ainda, pelo menos no Brasil. Mesmo assim existem alguns livros que podem ser recomendados nesse sentido:

1. Como aprendi o português e outras aventuras, de Paulo Rónai. Leitura agradabilíssima sobre como um erudito húngaro, radicado no Brasil, aprendeu o português, desde as dificuldades de interpretação de poesias paulistas até as peripécias nos bondinhos portugueses. Quando chegou ao Brasil, Rónai exclamou: "ah, esse foi o português que aprendi"! Há outros capítulos falando sobre métodos utilizados por poliglotas do mundo todo.

2. Polyglot: how I learn languages, de Kató Lomb. Outra húngara, cuja obra foi traduzida para o inglês e se encontra disponível em: http://www.cc.kyoto-su.ac.jp/information/tesl-ej/ej45/tesl-ej.ej45.fr1.pdf. Ler a Kató é motivo de inspiração constante. Vale lembrar que a maioria de suas línguas foram aprendidas em idade adulta, demolindo o mito de que se aprende apenas quando é criança. Estamos falando de uma das primeiras intérpretes de conferência do mundo.

3. The polyglot project, organizado por Claude Cartaginese. Trata-se de uma antologia com artigos de diferentes aprendizes de idiomas, alguns mais avançados, outros menos. Contam a experiência de cada um aprendendo e dominando os idiomas que estabeleceram para si. Vale a pena ler os artigos de Moses McCormick, Stuart Jay Raj e Benny Lewis. O livro está disponível em http://www.fluentin3months.com/wp-content/downloads/The_Polyglot_Project.pdf.

Existem também vários livros, sobretudo em inglês, que tratam do tema "teach yourself languages" -- ensine idiomas a si mesmo. Há de saber distinguir entre os livros sérios e os mercantilistas. Como disse no início, conheço poucos livros publicados no Brasil sobre o assunto. Além da obra de Rónai citada acima, tenho também o livro As línguas divertem: uma visão não convencional, de Oswaldo Ballarin.

Se alguém conhecer outros livros brasileiros na área, por favor compartilhe!

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Autodidatismo em idiomas

É plenamente possível aprender idiomas de forma autodidata. O autodidatismo em idiomas não implica em aprendizado isolado, totalmente independente, sem recorrer à ajuda de pessoas mais capazes, eventualmente até mesmo professores. Significa, antes, o estudo conduzido e supervisionado pela própria pessoa, senhora de si, com objetivos e estratégias selecionadas por si, adequadas a si, utilizadas de maneira condizente com suas características gerais de personalidade, levando também em conta a estrutura material disponível, o tempo, e a disposição para levar a cabo a aquisição. A obra Como ser um ótimo aluno de idiomas, de Joan Rubin e Irene Thompson (2000), apresenta técnicas e estratégias para o aprendiz gerenciar o próprio aprendizado. Não se trata de um manual para o autodidata em idiomas, porém constitui um prático material de apoio e orientação nesse sentido. Destacar-se-á algumas ideias aduzidas pelas autoras com a intenção de precisar a postura autodidata.


1) Definir objetivos: é importante definir claramente os objetivos que se quer atingir ao iniciar o estudo de qualquer idioma. Para que aprender uma língua? Os motivos são tão diversos quanto as motivações pessoais de cada um. Podem ser profissionais, educacionais, sociais ou pessoais. Em primeiro lugar, definir as necessidades perante o idioma. Em seguida, manter os objetivos em um nível realista. Ninguém aprende um idioma de um dia para o outro. O seu aprendizado pode levar muito tempo, em função da afinidade, da complexidade e do grau de parentesco da língua-alvo com a língua materna, entre outros fatores.


2) Estabelecer nível: o aprendiz, a fim de manter seus objetivos realistas, pode estabelecer para si próprio o nível que pretende alcançar na língua em questão. Quer ser fluente? Quer saber o suficiente para a sua profissão técnica? Precisa aprender apenas a ler no idioma, a fim de passar em alguma prova? Ao que tudo indica, cada vez que se passa de um para outro nível o aprendizado exigirá gradualmente mais tempo e esforço. Por ocasião do processo de planejamento de objetivos, recomenda-se levar em conta o fato de que a dificuldade aumenta a cada vez que se passa de um nível a outro. Para ajudar nesse processo, pode-se aproveitar a escala global de níveis de proficiência, disponibilizada abaixo, desenvolvida pela União Européia. Tal trabalho foi realizado para padronizar as avaliações de idiomas nos diferentes países da Europa, e reflete o consenso quanto aos níveis pelos quais a pessoa passa quando aprende uma língua estrangeira.



3) Disponibilizar recursos: o aprendiz geralmente lança mão, em seu empreendimento, de livros-texto, dicionários, fitas cassete, CDs, gramáticas, fitas de vídeo, softwares, professores, falantes nativos, amigos, revistas, jornais e livros, entre outros. Vários desses materiais podem ser conjugados. Por exemplo: um artigo de uma determinada revista pode ser lido a fim de ser resumido ou então para que se escreva a posição pessoal em relação ao assunto abordado. Nessa atividade pratica-se a leitura crítica, adquiri-se vocabulário e, por fim, exercita-se a escrita. O mesmo exemplo pode ser estendido a um filme. Depois de assisti-lo, discutir-se-ia sobre o mesmo. Igualmente, se aprenderia vocabulário de maneira espontânea, se treinaria a compreensão auditiva e, ao final, se exercitaria a expressão oral. Vale assinalar que os DVDs atuais possuem recursos que permitem ver um filme na sua língua original com legendas ou na língua materna do telespectador. Há ainda revistas com artigos em formato sonoro, em CDs. Pode-se escutá-lo e depois checar a compreensão lendo o artigo. Como se constata, a imaginação é o único limite para a utilização original e proveitosa dos materiais disponíveis no mercado.



4) Desenvolver plano de estudos: estabelecidos os objetivos e o nível que se quer alcançar, conforme os recursos disponíveis, o próximo passo é desenvolver o próprio plano de estudos. Nesse particular a disciplina e a dedicação são indispensáveis. Há autodidatas que dedicam 3 horas diárias ao estudo de um determinado idioma. Há outros que estudam por imersão, isto é, procuram “respirar” o idioma-alvo 24 horas, saturando a mente com ele. Independentemente da escolha, é importante observar a dedicação dispensada a cada uma das 4 (quatro) habilidades da língua, isto é, a escuta, a fala, a leitura e a escrita. Vale a pena se dedicar a cada uma por igual ou priorizar a escuta em primeiro lugar e depois a fala? São questões que os passos anteriores já vão de certa forma respondendo e delimitando.


5) Aprender a aprender: uma boa dica é tornar-se um estrategista de si mesmo. O aprendiz que deseja aprimorar uma determinada habilidade, por exemplo, a expressão oral, pode elaborar um questionário para si mesmo a fim de aperfeiçoar cada vez mais seu processo de auto-instrução. Seriam questões do tipo: quando não sabe como dizer algo no idioma estrangeiro, tenta dizê-lo de outra forma? Ao sentir-se “travado” em uma conversação, geralmente tenta obter ajuda de seu interlocutor? Você possui uma variedade de expressões úteis para comunicar-se durante uma conversação na outra língua, por exemplo, frases fixas que expressam o seu estado de ânimo ou problemas com a linguagem, expressões padronizadas para cobrir as brechas na conversação, para ser sociável e amistoso?

           
Vale ressaltar que dificilmente os interesses financeiros de editoras de livros-texto, de escolas, e até de professores, sugerirão o aprendizado autodidata de línguas. É preciso lembrar, contudo, que uma vez que se tenha disponível a informação – a língua em si, através de livros e dicionários –, no que, aliás, a Internet veio muito a contribuir, e a vontade aliada à disciplina, é perfeitamente exequível tornar-se um autodidata. Basta, acima de tudo, dedicação.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Passar nos Exames Internacionais

     Os exames internacionais de idiomas, também conhecidos como certificados de proficiência, são provas que, como o vestibular, são mais bem enfrentadas quando temos algumas cartas na manga. O objetivo dessa postagem -- um pouco longa, mas vale a pena! -- é compartilhar algumas dicas para ajudar a quem quer passar nessas provas. Os macetes estão fundamentados na minha experiência (tenho 7 certificados internacionais: B2 e C2 em inglês; B1, B2 e C1 em francês; C2 em espanhol; e B1 em italiano) e no livro The Art and Science of Learning Languages, de Amorey Gethin e Erik Gunnemark.

     De modo geral, para passar nos exames você precisa:
1) Preparar-se corretamente antes da prova.
2) Usar as técnicas corretas durante a prova.

     Na preparação, é importantíssimo seguir um dos preceitos mais importantes da Antiguidade: Conhece-te a ti mesmo! Ou seja, tenha uma lista de seus erros "preferidos". Ter autoconsciência de seus pontos fracos é, paradoxalmente, uma das chaves do sucesso para passar nos exames. Em primeiro lugar, faz com que você não se exponha sem necessidade. Você deve mostrar ao examinador apenas o que sabe, nunca aquilo que ignora. Em segundo, faz com que você, no tempo que reservará para revisão ao final do exame, saiba exatamente o que revisar.

     Além de conhecer a si mesmo, é fundamental conhecer também a prova que será realizada. As partes que a compõem, a pontuação e o tempo alocado para cada parte, o tipo de linguagem, de estruturas gramaticais e de vocabulário a ser exigido, os assuntos que podem cair na compreensão e na produção de texto, entre outros.

     Faça as provas anteriores! Esse é talvez a dica mais óbvia, porém a mais quente. Vários dos exames internacionais disponibilizam amostras de provas anteriores (chamadas em inglês de sample papers). Mas atenção: saber e tentar decorar a resposta de mil exercícios não vale nada se você não souber como resolvê-los. O problema não é lembrar-se da resposta. O problema é lembrar do problema!

     Durante a prova, uma das técnicas básicas diz respeito ao controle do tempo, ou timing. A primeira regra é tentar fazer toda a prova. Você não obterá pontos por aquilo que deixou de fazer. E para isso, fica mais fácil se você tiver tudo cronometrado -- o tempo que deve ser gasto em cada parte da prova. Tem gente que acha estressante ficar de olho no relógio. Porém, é melhor ter esse pequeno estresse do que um grande estresse e frustração no final do exame.

     Daí a importância de se ter feito simulados da prova durante a preparação. Você saberá exatamente como se comportar quanto ao tempo. Isso é ainda mais crítico se você considerar que, ao final, ainda deve sobrar tempo para revisar e passar o que foi marcado para a folha de respostas (no caso dos exames que não são feitos em computador).

     A revisão é importante. Muita gente diz que se for revisar vai acabar apagando uma resposta certa e colocando uma errada. Isso acontece porque elas não sabem exatamente o que revisar. Dependendo das questões, você pode ir marcando aquilo onde ficou com dúvida para voltar ao final da prova. Mas isso só adianta quando são questões de compreensão de texto ou de gramática, porque as perguntas de compreensão oral são muito rápidas, e uma vez que o som acabou, não tem como voltar atrás. Essas você tem que dar o máximo de si e resolver na hora.

     Antes dessas provas de compreensão oral, é necessário ajustar o som que sai das caixas. Se o examinador não fizer isso e você sentir que está muito alto ou muito baixo, você deve solicitar ao responsável, gentilmente, que regule o som para o seu melhor desempenho. Tem gente que prefere fazer essa parte de olho fechado, outros preferem de olho aberto. Enfim, veja como você se concentra melhor e dê o máximo de si.

     Quanto à redação, antes de começar a escrever em definitivo, é crucial fazer um breve esboço do texto. Não haverá tempo para um rascunho completo, mas é possível organizar as ideias e ver quais serão desenvolvidas. Eu gosto de pensar em 1 parágrafo para a introdução, 2 para o desenvolvimento e 1 para a conclusão. E sempre começo pelo desenvolvimento, depois concluo, e então faço a introdução. Cada um pode desenvolver a sua técnica.

     É importante também, para a redação, que você tenha levantado sua lista de "erros preferidos" durante a preparação. Se você sabe que sempre comete erros com artigos definidos / indefinidos, por exemplo, vale a pena revisar o texto para esses detalhes. Às vezes os pontos que você ganha com os detalhes podem ser determinantes.

     Ah, não se esqueça do equipamento básico: eu gosto de levar meu estojo surrado, com todas as canetas, lápis e borrachas necessários, além de barra de cereal, garrafinha d'água, relógio (lembre-se de que, geralmente, celular não é permitido nas salas de prova) e outros apetrechos que se fizerem necessários.

     Resumindo:
1) Conhece-te a ti mesmo.
2) Conheça a sua prova.
3) Seja rigoroso no controle do tempo.
4) Revise.

     E, finalmente, seja realista: não busque ser perfeito na prova. É mais inteligente limitar-se a responder ao que está sendo pedido.

     Com essas dicas, a prova não o assustará, e passar será uma questão de ter o nível adequado para o que é exigido pela prova. Você aumentará a sua autoconfiança e estará no controle da situação. Encare a prova como um desafio saudável, estimulante, e você aumentará em muito suas chances de sucesso.


Boa sorte! ¡Suerte! Good luck! Buona fortuna! Viel Glück! Bonne chance !



   



sábado, 21 de junho de 2014

Certificados Internacionais

     Os Certificados Internacionais de idiomas são exames de proficiência linguística com validade no mundo inteiro. Na prática, são exames de base europeia ou norte-americana que gozam de prestígio mundial. Os exames europeus fundamentam-se no Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas, assunto da postagem anterior.

     Esses exames são muito bons por vários motivos, entre eles:
1) Conferem uma certificação reconhecida. Os diplomas de conclusão de curso obtidos em escolas de idiomas existentes no Brasil, por exemplo, não tem validade perante o MEC (Ministério da Educação).
2) Diferenciam o currículo de quem busca atuação profissional internacional.
3) Enriquecem o currículo acadêmico de quem quer fazer pós-graduação no exterior. De fato, universidades estrangeiras pedem aos candidatos que apresentem esses diplomas internacionais.

     INGLÊS
     Para a língua de Shakespeare, existem vários exames. Os mais comuns são o TOEFL (Test of English as a Foreign Language, de base estadunidense) e os exames de Cambridge (de base britânica). A pontuação atingida no TOEFL determina para quem você pode mostrar seu diploma -- se busca emprego internacional, a pontuação pode ser intermediária; se deseja pós-graduação fora, a pontuação deve ser avançada. Quanto aos exames de Cambridge, o nível B2, próprio para trabalho no exterior, é avaliado pelo FCE (First Certificate in English). Os níveis C1 e C2, para pós-gradução no estrangeiro, são avaliados pelo CAE (Certificate in Advanced English) e CPE (Certificate of Proficiency in English), respectivamente. Apesar de os exames de Cambridge serem tradicionalmente oferecidos pela Cultura Inglesa, os exames de inglês não são oferecidos por uma única escola ou instituição. Por isso, vale a pena se informar com a escola de idioma mais próxima, ou onde você estuda, ou onde quer estudar, para ver se ela oferece um exame internacional de inglês.

     ESPANHOL
     Para a língua de Cervantes, o exame é o DELE (Diploma de Español como Lengua Extranjera). Na época em que eu fiz os exames, eram oferecidos apenas em três níveis. Hoje, a julgar pelas informações do site da prova, são oferecidos em todos os níveis. As provas são realizadas pelo Instituto Cervantes.

     FRANCÊS
     Para a língua de Molière, os exames são o DELF (Diplôme d'Études en Langue Française) e o DALF (Diplôme Approfondi de Langue Française). As provas até o nível B2 são chamadas, no geral, de provas DELF, e as duas provas do nível avançado, C1 e C2, são chamadas de provas DALF. Assim como no caso do inglês, para fins acadêmicos o nível mínimo exigido é o C1. As provas são oferecidas pela Aliança Francesa.

     ITALIANO
     Para a língua de Dante, o exame mais conhecido é o CELI (Certificato di Conoscenza della Lingua Italiana) da Università per Stranieri di Perugia. Também em diversos níveis, são oferecidos no Brasil por diferentes instituições, inclusive pelos Centros de Cultura Italiana.

     ALEMÃO
     Para a língua de Goethe, o exame mais comum é o Goethe-Zertifikat, com provas desde o nível A1 até o C2. São oferecidos, no Brasil, pelo Instituto Goethe. Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) é, provavelmente, o maior nome da literatura alemã e um dos maiores nomes da literatura mundial, por isso seu nome foi repetido 4 vezes nesse parágrafo!

     Para todos esses exames, vale a pena fazer uma pesquisa na internet para se certificar das datas e locais das provas, além de outros detalhes. Em relação a outros exames de proficiência, incluindo aqueles dos idiomas não abordados aqui, recomendo conferir o seguinte link:
http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_language_proficiency_tests

     Só por questão de curiosidade: Portugal e Brasil também oferecem seus próprios exames. O português é realizado pelo Centro de Avaliação de Português Língua Estrangeira (CAPLE) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, também em 6 níveis. O brasileiro chama-se Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras), desenvolvido pelo MEC. Oferecido nas principais universidade brasileiras, principalmente as federais, e em diversos países do exterior, o Celpe-Bras avalia, por meio de uma única prova, 4 níveis diferentes: intermediário, intermediário superior, avançado, e avançado superior.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas - Parte 2

     Segundo o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas, o turista que sabe algumas frases feitas e consegue se virar para comprar um bilhete de trem, reservar um quarto de hotel, ou pedir almoço, está no nível A2. Aqueles que já conseguem conversar um pouco além disso, mesmo com erros ou hesitações, estão no nível B1. Guias de turismo, por exemplo, precisam pelo menos do B1 no idioma estrangeiro com o qual trabalham.

     O nível B2 já é um estágio bom. Conheço muitos professores de idiomas que teriam de suar a camisa para passar num exame desse nível! Já um tradutor realmente profissional, tem que estar, no mínimo, no nível C1. Intérpretes de conferências que falam uma língua estrangeira na cabine de tradução simultânea, por exemplo, devem estar no C2.

     Vale lembrar que esses meus exemplos não são para serem levados a ferro e fogo. Existem vários fenômenos associados a uma língua estrangeira, como a plasticidade e o enferrujamento, por exemplo, que faz com que mudemos um pouco o nível de proficiência de acordo com o uso mais ou menos intenso do idioma.

     Outra coisa interessante a observar é que raramente estamos no mesmo nível em todas as 4 habilidades. Tomemos como exemplo a língua materna de cada um. Não é fácil encontrar alguém que escreva tão bem, nível C2, no próprio idioma. Conhecimento de gramática também -- não é difícil um brasileiro que estudou muito inglês saber mais de gramática que um inglês ou estadunidense de cultura mediana. Tudo isso são questões relativas e que devem ser consideradas no caso pessoal de cada um. Como dizem: "cada caso é um caso"!

     De qualquer forma, gosto de utilizar o Quadro Europeu porque me parece o meio mais prático e objetivo de se estabelecer o nível de idiomas de uma pessoa. O ideal seria o poliglota se avaliar e dar o seu nível em cada uma das habilidades linguísticas por meio dessa tabela. Como isso pode soar sistemático demais, vale pelo menos considerar que, quando a pessoa diz falar dezenas de idiomas, muitos deles estarão nos níveis A1 ou A2. Manter várias línguas nos níveis avançados, C1 e/ou C2, por exemplo, não é fácil, pois demanda tempo de manutenção. Aí entram os objetivos da pessoa: o que você quer com o idioma estudado?

Vale mais um bilíngue produtivo do que um poliglota disperso.

     Na internet existe o seguinte check-list, em inglês, que permite a pessoa ter uma ideia do nível em que está de acordo com o Quadro Europeu:
http://www.coe.int/t/dg4/education/elp/elp-reg/Source/Key_reference/checklist_EN.pdf

     Porém, o melhor mesmo, para dizer em que nível se está, ou até para programar o que nível ao qual se quer chegar, é procurar fazer uma prova internacional de proficiência.

     Fique à vontade para compartilhar suas experiências. Será um prazer ler seus comentários!




domingo, 15 de junho de 2014

Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas - Parte 1

          Vimos na última postagem porque é interessante considerar as 4 habilidades linguísticas (leitura, escuta, fala e escrita) quando estabelecemos onde estamos e também aonde queremos chegar no aprendizado de uma língua. Agora vamos combinar a perspectiva das 4 habilidades com a tabela abaixo, apresentando o que o falante de um idioma pode fazer em cada nível considerado. A tabela é o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas -- disponível em várias fontes na Internet (principalmente em inglês, com o nome de Common European Framework of Reference for Languages) --, que modifiquei ligeiramente para adaptá-la à apresentação:

A1 (básico inferior): É capaz de compreender e utilizar expressões familiares e correntes assim como enunciados simples que visam satisfazer necessidades imediatas. É capaz de se apresentar ou apresentar alguém e indagar seu interlocutor sobre assuntos como o local onde vive, suas relações pessoais, o que lhe pertence, entre outros. É capaz de responder ao mesmo tipo de questões. É capaz de se comunicar de forma simples desde que seu interlocutor fale clara e pausadamente e se mostre disposto a colaborar para entender o que lhe é falado.

A2 (básico superior): É capaz de compreender frases isoladas e expressões de uso frequente relacionadas com assuntos de prioridade imediata -- informações pessoais e familiares simples, compras e trabalho, por exemplo. É capaz de se comunicar em situações que exijam apenas trocas de informações simples e diretas sobre assuntos e atividades habituais. É capaz de descrever com meios simples a sua formação, o seu ambiente e de se referir a assuntos que correspondem a necessidades imediatas.

B1 (intermediário inferior): É capaz de compreender os pontos essenciais quando a linguagem padrão utilizada é clara, abordando aspectos familiares em contextos de trabalho, escola e passatempo, entre outros. É capaz de participar da maior parte das situações que podem ocorrer em viagem para uma região onde a língua-alvo é falada. É capaz de organizar um discurso simples e coerente sobre assuntos familiares em diferentes áreas de interesse. É capaz de relatar acontecimentos, experiências ou sonhos, de expressar um desejo ou uma ambição, e de justificar, de forma breve, as razões de um projeto ou de um ponto de vista.

B2 (intermediário superior): É capaz de compreender o conteúdo essencial de assuntos concretos ou abstratos em um texto complexo, incluindo uma discussão técnica na sua especialidade. É capaz de se comunicar com grande espontaneidade, o que permite uma conversa normal com falantes nativos, não se detectando tensão em nenhum dos interlocutores. É capaz de se expressar de forma clara e detalhada sobre uma vasta gama de assuntos, de emitir opinião sobre uma questão atual e de discutir as vantagens e desvantagens de diferentes argumentos.

C1 (avançado inferior): É capaz de compreender uma vasta gama de textos longos e complexos, inclusive detectando significações implícitas. É capaz de se expressar de forma espontânea e fluente sem, aparentemente, ter de procurar as palavras. É capaz de utilizar a língua de maneira eficaz e flexível na sua vida social, profissional ou acadêmica. É capaz de se expressar sobre assuntos complexos, de forma clara e bem estruturada, e de mostrar domínio dos meios de organização, de articulação e de coesão do discurso.

C2 (avançado superior): É capaz de compreender sem esforço praticamente tudo o que lê ou ouve. É capaz de reconstituir fatos e argumentos de fontes diversas, escritas e orais, resumindo-as de forma coerente. É capaz de se expressar de forma espontânea, fluente e precisa e de distinguir pequenas diferenças de sentido relacionadas com assuntos complexos.

          A tabela foi criada pelo Conselho Europeu com o objetivo de propiciar um denominador comum aos métodos de aprendizado, ensino e avaliação das línguas da União Europeia. Posteriormente, o Quadro foi utilizado também para servir de base às provas de proficiência dos diferentes países europeus (goo.gl/fvDQnu). Por isso, as provas internacionais de inglês (Cambridge), francês (DELF/DALF), italiano (Perugia), espanhol (Instituto Cervantes) e alemão (Instituto Goethe) seguem essa mesma escala.

          Para quem quiser ter uma visão mais detalhada do Quadro, com as habilidades dos 6 diferentes níveis detalhadas em cada uma das 4 habilidades, é só fazer o download do material disponível no link abaixo:
http://europass.cedefop.europa.eu/pt/resources/european-language-levels-cefr.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

A perspectiva das 4 habilidades linguísticas

No aprendizado de 1 idioma, é preciso considerar as 4 habilidades:
1) Compreensão auditiva (escuta).
2) Compreensão escrita (leitura).
3) Produção oral (fala)
4) Produção escrita (escrita).

As duas primeiras costumam ser chamadas de habilidades passivas e as duas últimas de habilidades ativas. Embora não seja tão exata essa classificação -- diante de um texto complexo o esforço de compreensão, portanto esforço ativo, pode ser enorme! --, é fato que aprender a ler bem textos de sua área de especialidade pode ser mais rápido e mais viável do que aprender a dar palestras no idioma estrangeiro na sua mesma área de habilidade, simplesmente porque quando você lê, recebe as frases prontas, e quando você tem que articular tudo isso pela sua própria conta, o esforço exigido é diferente.

De qualquer modo, o importante aqui é entender que quando uma pessoa diz que sabe ou fala 20 idiomas, por exemplo, ela na verdade sabe ler, em diferentes níveis de competência, a maioria dessas línguas, e sabe falar bem algumas delas. De outras línguas, ela sabe o básico, umas 400 palavras e 50 frases, por exemplo, ou ainda menos. O poliglota sueco Erik Gunnemark, co-autor do livro "The Art and Science of Learning Languages", afirmou: "if you read or hear that a certain person 'can speak' (or 'speaks') a large number of languages (for instance twenty or more) you should always be a little skeptical." (se você ler ou escutar dizer que certa pessoa 'consegue falar' (ou 'fala') um grande número de idiomas (por exemplo, vinte ou mais) você deve sempre permanecer um pouco cético). Isso está no livro Babel no More, de autoria de Michael Erard, página 226.

Isso é apenas para pôr as coisas em perspectiva. Quando perguntam para o estadunidense Alexander Arguelles quantas línguas ele fala, o estudioso demonstra grande cautela, e apesar de ter estudado mais de 50 idiomas, afirma falar mesmo apenas a sua língua materna -- o inglês --, além do francês, do alemão e do coreano. Entrevistado por Michael Erard, (página 115 de Babel No More), Arguelles afirma "most of the languages I've studied I've never spoken, and I probably never will" (nunca falei a maioria das línguas que estudei, e provavelmente nunca falarei).

Portanto, o ideal mesmo seria a pessoa sempre pôr em perspectiva o nível dela nas 4 diferentes habilidades linguísticas. Isso ajuda também no estabelecimento dos objetivos de aprendizagem. Ela pode focar em tão-somente aprender a falar, e permanecer praticamente uma analfabeta na língua em questão. Por outro lado, grandes filólogos (pesquisadores dos idiomas e textos mais representativos de uma cultura com o objetivo de compreender a visão de mundo de tal sociedade), por exemplo, estão mais preocupados em apreender a estrutura e saber ler uma língua do que propriamente falá-la. A ênfase no falar é típica da sociedade atual. Nada de errado, já que falar inglês é uma necessidade real de grande número de pessoas.

Mas então, alguém pode perguntar: "ok, entendi que devemos considerar as 4 habilidades toda vez que falarmos de proficiência linguística. Porém, como dizer, de modo objetivo, em que nível estamos ou em que nível queremos chegar?" É certo que referências como "básico", "intermediário" ou "avançado" não são precisas. Necessitamos do apoio de uma escala confiável e validada. É aí que entra o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas, assunto da próxima postagem!